As transformações no mercado de trabalho exigem competências que o sistema educacional brasileiro ainda não está preparado para desenvolver em escala.
O debate sobre educação no Brasil frequentemente oscila entre dois extremos igualmente improdutivos: o catastrofismo que vê o sistema como irremediavelmente falido e o otimismo que celebra melhorias marginais como conquistas históricas. Uma análise mais rigorosa dos dados disponíveis revela um quadro mais nuançado — e mais preocupante em aspectos específicos que raramente recebem a atenção que merecem.
O problema central não é apenas de quantidade — número de matrículas, anos de escolaridade, cobertura da educação infantil — mas de qualidade e, mais especificamente, de alinhamento entre o que o sistema ensina e o que o mercado de trabalho e a sociedade contemporânea demandam.
Competências do século XXI em currículos do século XX
As avaliações internacionais como o PISA documentam sistematicamente que estudantes brasileiros apresentam desempenho abaixo da média da OCDE em leitura, matemática e ciências. Mas esses indicadores, por mais importantes que sejam, não capturam dimensões igualmente relevantes: capacidade de resolução de problemas complexos, pensamento crítico, colaboração, literacia digital e adaptabilidade.
Essas competências são precisamente as que o mercado de trabalho mais demanda — e as que o sistema educacional brasileiro menos desenvolve de forma sistemática. O resultado é uma lacuna que se manifesta tanto no desemprego de jovens com escolaridade formal quanto na dificuldade das empresas em encontrar profissionais com o perfil que buscam.
Fechar essa lacuna exige mais do que reformas curriculares — exige uma transformação profunda na formação e valorização dos professores, na infraestrutura das escolas e, fundamentalmente, na concepção do que significa educar para o século XXI. É um desafio de longo prazo que não admite soluções rápidas, mas que também não pode ser adiado indefinidamente.
Editora de Sustentabilidade
Mestre em desenvolvimento sustentável pela UnB. Acompanha as políticas climáticas brasileiras e internacionais há mais de uma década.